segunda-feira, 30 de março de 2009

Entrevista

O Conversa Afiada reproduz o artigo do historiador britânico Eric Hobsbawm, veiculado no Agência Carta Maior:
Em entrevista publicada no jornal Página 12, o historiador britânico Eric Hobsbawm fala da crise atual e de suas possíveis implicações políticas. Para ele, o mundo está entrando em um período de depressão e os grandes riscos, diante da fragilidade da esquerda mundial, são o crescimento da xenofobia e da extrema-direita. Hobsbawm destaca o que está acontecendo na América Latina e elogia o presidente brasileiro. “É o verdadeiro introdutor da democracia no Brasil. No Brasil há muitos pobres e ninguém jamais fez tantas coisas concretas por eles”.
Martin Granovsky - Página12
Em junho ele completa 92 anos. Lúcido e ativo, o historiador que escreveu “Rebeldes Primitivos”, “A Era da Revolução” e a “História do Século XX”, entre outros livros, aceitou falar de sua própria vida, da crise de 30, do fascismo e do antifascismo e da crise atual. Segundo ele, uma crise da economia do fundamentalismo de mercado é o que a queda do Muro de Berlim foi para a lógica soviética do socialismo.
Hobsbawm aparece na porta da embaixada da Alemanha, em Londres. São pouco mais de três da tarde na bela Belgrave Square e se enxergam as bandeiras das embaixadas por trás das copas das árvores. De óculos, chapéu na cabeça e um casaco muito pesado, cumprimenta. Tem mãos grandes e ossudas, mas não parecem as mãos de um velho. Nenhuma deformação de artrite as atacou. Rapidamente uma pequena prova demonstra que as pernas de Hobsbawm também estão em boa forma. Com agilidade desce três degraus que levam do corrimão a calçada. Parece enxergar bem. Tem uma bengala na mão direita. Não se apóia nela, mas talvez a use como segurança, em caso de tropeçar, ou como um sensor de alerta rápido que detecta degraus, poças e, de imediato, o meio-fio da calçada. Hobsbawm é alto e magro. Uns oitenta e bicos. Não pede ajuda. O motorista do Foreign Office lhe abre a porta esquerda do jaguar preto. Entra no carro com facilidade. O carro é grande, por sorte, e cabe, mas a viagem é curta.
- Acabo de me encontrar com um historiador alemão, por isso estou na embaixada, e devo voltar – avisa. Ele chegou de visita a Londres e quis conversar com alguns de nós. Sei que vamos a Canning House. Está bem. Poucas voltas, não?
O carro dá meia volta na Belgrave Square e pára na frente de outro palacete branco de três andares, com uma varanda rodeada de colunas e a porta de madeira pesada. Por algum motivo mágico o motorista de cabelos brancos com uma mecha sobre o rosto, traje azul e sorridente como um ajudante do inspetor Morse de Oxford, já abre a porta a Hobsbawm. Entre essas construções tão parecidas, a elegância do Jaguar o assemelha a uma carruagem recém polida. O motorista sorri quando Hobsbawm desce. O professor lhe devolve a simpatia enquanto sobe com facilidade num hall obscuro. Já entrou em Canning House e à direita vê uma enorme imagem de José de San Martin. À esquerda do corredor, uma grande sala. O chá está servido. Quer dizer, o chá, os pães e uma torta. Outro quadro do mesmo tamanho que o de San Martin. É Simon Bolívar. E também é Bolívar o cavalheiro do busto sobre o aparador.
Quanto chá tomaram Bolívar e San Martin antes de saírem de Londres para a América do Sul, em princípios do século XIX, para cumprir seus planos de independência?
Hobsbawm pega a primeira taça e quer ser quem faz a primeira pergunta.
- Como está a Argentina? - interroga mas não muito, porque não espera e comenta – No ano passado Cristina esteve para vir a Londres para uma reunião de presidentes progressistas e pediu para me ver. Eu disse sim, mas ela não veio. Não foi sua culpa. Estava no meio do confronto com a Sociedade Rural.
Hobsbawm fala um inglês sem afetação nem os trejeitos de alguns acadêmicos do Reino Unido. Mas acaba de pronunciar “Sociedade Rural” em castellhano.
- O que aconteceu com esse conflito?
Durante a explicação, o professor inclina a cabeça, mais curioso que antes, enquanto com a mão direita seu garfo tenta cortar a torta de maçã. É uma tarefa difícil. Então se desconcentra da torta e fixa o olhar esperando, agora sim, alguma pergunta.
- O mundo está complicado – afirma ainda mantendo a iniciativa. Não quero cair em slogans, mas é indubitável que o Consenso de Washington morreu. A desregulação selvagem já não é somente má: é impossível. Há que se reorganizar o sistema financeiro internacional. Minha esperança é que os líderes do mundo se dêem conta de que não se pode renegociar a situação para voltar atrás, senão que há que se redesenhar tudo em direção ao futuro.
A Argentina experimentou várias crises, a última forte em 2001. Em 2005 o presidente Néstor Kirchner, de acordo com o governo brasileiro, que também o fez, pagou ao FMI e desvinculou a Argentina do organismo para que o país não continuasse submetido a suas condicionalidades.
- É que a esta altura se necessita de um FMI absolutamente distinto, com outros princípios que não dependam apenas dos países mais desenvolvidos e em que uma ou duas pessoas tomam as decisões. É muito importante o que o Brasil e a Argentina estão propondo, para mudar o sistema atual. Como estão as relações de vocês?
- Muito bem
- Isso é muito importante. Mantenham-nas assim. As boas relações entre governos como os de vocês são muito importantes em meio a uma crise que também implica riscos políticos. Para os padrões estadunidenses, o país está girando à esquerda e não à extrema direita. Isso também é bom. A Grande Depressão levou politicamente o mundo para a extrema direita em quase todo o planeta, com exceção dos países escandinavos e dos Estados Unidos de Roosevelt. Inclusive o Reino Unido chegou a ter membros do Parlamento que eram de extrema direita [e começa a entrevista propriamente].
- E que alternativa aparece?- Não sei. Sabe qual é o drama? O giro à direita teve onde se apoiar: nos conservadores. O giro à esquerda também teve em quem descansar: nos trabalhistas.
- Os trabalhistas governam o Reino Unido.- Sim, mas eu gostaria de considerar um quadro mais geral. Já não existe esquerda tal como era.
- Isso lhe é estranho?- Faço apenas o registro.
- A quê se refere quando diz “a esquerda tal como era”?- Às distintas variantes da esquerda clássica. Aos comunistas, naturalmente. E aos socialdemocratas. Mas, sabe o que acontece? Todas as variantes da esquerda precisam do Estado. E durante décadas de giro à direita conservadora, o controle do Estado se tornou impossível.
- Por que?- Muito simples. Como você controla o estado em condições de globalização? Convém recordar que, em princípios dos anos 80 não só triunfaram Ronald Reagan e Margareth Thatcher. Na França, François Miterrand não obteve uma vitória.
- Havia vencido para a presidência dem 1974 e repetiu a vitória em 1981.- Sim. Mas quando tentou uma unidade das esquerdas para nacionalizar um setor maior da economia, não teve poder suficiente para fazê-lo. Fracassou completamente. A esquerda e os partidos socialdemocratas se retiraram de cena, derrotados, convencidos de que nada se podia fazer. E, então, não só na França como em todo mundo ficou claro que o único modelo que se podia impor com poder real era o capitalismo absolutamente livre.
- Livre, sim. Por que diz “absolutamente”?- Porque com liberdade absoluta para o mercado, quem atende aos pobres? Essa política, ou a política da não-política, é a que se desenvolveu com Margareth Thatcher e Ronald Reagan. E funcionou – dentro de sua lógica, claro, que não compartilho – até a crise que começou em 2008. Frente à situação anterior a esquerda não tinha alternativa. E frente a esta? Prestemos atenção, por exemplo, à esquerda mais clássica da Europa. É muito débil na Europa. Ou está fragmentada. Ou desapareceu. A Refundação Comunista na Itália é débil e os outros ramos do ex Partido Comunista Italiano estão muito mal. A Esquerda Unida na Espanha também está descendo ladeira abaixo. Algo permaneceu na Alemanha. Algo na França, como Partido Comunista. Nem essas forças, nem menos ainda a extrema esquerda, como os trotskistas, e nem sequer uma socialdemocracia como a que descrevi antes alcançam uma resposta a esta crise a seus perigos, contudo. A mesma debilidade da esquerda aumenta os riscos.
- Que riscos?- Em períodos de grande descontentamento como o que começamos a viver, o grande perigo é a xenofobia, que alimentará e será por sua vez alimentada pela extrema direita. E quem essa extrema direita buscará? Buscará atrair os “estúpidos” cidadãos que se preocupam com seu trabalho e têm medo de perdê-lo. E digo estúpidos ironicamente, quero deixar claro. Porque aí reside outro fracasso evidente do fundamentalismo de mercado. Deu liberdade para todos, e a verdadeira liberdade de trabalho? A de mudá-lo e melhorar em todos os aspectos? Essa liberdade não foi respeitada porque, para o fundamentalismo de mercado isso tinha se tornado intolerável. Também teriam sido politicamente intoleráveis a liberdade absoluta e a desregulação absoluta em matéria laboral, ao menos na Europa. Eu temo uma era de depressão.
- Você ainda tem dúvidas de que entraremos em depressão?- Se você quiser posso falar tecnicamente, como os economistas, e quantificar trimestres. Mas isso não é necessário. Que outra palavra pode se usar para denominar um tempo em que muito velozmente milhões de pessoas perdem seu emprego? De qualquer maneira, até o momento no vejo um cenário de uma extrema direita ganhando maioria em eleições, como ocorreu em 1933, quando a Alemanha elegeu Adolf Hitler. É paradoxal, mas com um mundo muito globalizado um fator impedirá a imigração, que por sua vez aparece como a desculpa para a xenofobia e para o giro à extrema direita. E esse fator é que as pessoas emigrarão menos – falo em termos de emigração em massa – ao verem que nos países desenvolvidos a crise é tão grave. Voltando à xenofobia, o problema é que, ainda que a extrema direita não ganhe, poderia ser muito importante na fixação da agenda pública de temas e terminaria por imprimir uma face muito feia na política.
- Deixemos de lado a economia, por um momento. Pensando em política, o que diminuiria o risco da xenofobia?- Me parece bem, vamos à prática. O perigo diminuiria com governos que gozem de confiança política suficiente por parte do povo em virtude de sua capacidade de restaurar o bem-estar econômico. As pessoas devem ver os políticos como gente capaz de garantir a democracia, os direitos individuais e ao mesmo tempo coordenar planos eficazes para se sair da crise. Agora que falamos deste tema, sabe que vejo os países da América Latina surpreendentemente imunes à xenofobia?
- Por que?- Eu lhe pergunto se é assim. É assim?
- É possível. Não diria que são imunes, se pensamos, por exemplo, no tratamento racista de um setor da Bolívia frente a Evo Morales, mas ao menos nos últimos 25 anos de democracia, para tomar a idade da democracia argentina, a xenofobia e o racismo nunca foram massivos nem nutriram partidos de extrema direita, que são muito pequenos. Nem sequer com a crise de 2001, que culminou o processo de destruição de milhões de empregos, apesar de que a imigração boliviana já era muito importante em número. Agora, não falamos dos cantos das torcidas de futebol, não é?
- Não, eu penso em termos massivos.
- Então as coisas parecem ser como você pensa, professor. E, como em outros lugares do mundo, o pensamento da extrema direita aparece, por exemplo, com a crispação sobre a segurança e a insegurança das ruas.- Sim, a América Latina é interessante. Tenho essa intuição. Pense num país maior, o Brasil. Lula manteve algumas idéias de estabilidade econômica de Fernando Henrique Cardoso, mas ampliou enormemente os serviços sociais e a distribuição. Alguns dizem que não é suficiente…
- E você, o que diz?- Que não é suficiente. Mas que Lula fez, fez. E é muito significativo. Lula é o verdadeiro introdutor da democracia no Brasil. E ninguém o havia feito nunca na história desse país. Por isso hoje tem 70% de popularidade, apesar dos problemas prévios às últimas eleições. Porque no Brasil há muitos pobres e ninguém jamais fez tantas coisas concretas por eles, desenvolvendo ao mesmo tempo a indústria e a exportação de produtos manufaturados. A desigualdade ainda assim segue sendo horrorosa. Mas ainda faltam muitos anos para mudar as cosias. Muitos.
- E você pensa que serão de anos de depressão mundial- Sim. Lamento dizê-lo, mas apostaria que haverá depressão e que durará alguns anos. Estamos entrando em depressão. Sabem como se pode dar conta disso? Falando com gente de negócios. Bom, eles estão mais deprimidos que os economistas e os políticos. E, por sua vez, esta depressão é uma grande mudança para a economia capitalista global.
- Por que está tão seguro desse diagnóstico?- Porque não há volta atrás para o mercado absoluto que regeu os últimos 40 anos, desde a década de 70. Já não é mais uma questão de ciclos. O sistema deve ser reestruturado.
- Posso lhe perguntar de novo por que está tão seguro?- Porque esse modelo não é apenas injusto: agora é impossível. As noções básicas segundo as quais as políticas públicas deviam ser abandonadas, agora estão sendo deixadas de lado. Pense no que fazem e às vezes dizem, dirigentes importantes de países desenvolvidos. Estão querendo reestruturar as economias para sair da crise. Não estou elogiando. Estou descrevendo um fenômeno. E esse fenômeno tem um elemento central: ninguém mais se anima a pensar que o Estado pode não ser necessário ao desenvolvimento econômico. Ninguém mais diz que bastará deixar que o mercado flua, com sua liberdade total. Não vê que o sistema financeiro internacional já nem funciona mais? Num sentido, essa crise é pior do que a de 1929-1933, porque é absolutamente global. Nem os bancos funcionam.
- Onde você vivia nesse momento, no começo dos anos 30?- Nada menos que em Viena e Berlim. Era um menino. Que momento horroroso. Falemos de coisas melhores, como Franklin Delano Roosevelt.
- Numa entrevista para a BBC no começo da crise você o resgatou.- Sim, e resgato os motivos políticos de Roosevelt. Na política ele aplicou o princípio do “Nunca mais”. Com tantos pobres, com tantos famintos nos Estados Unidos, nunca mais o mercado como fator exclusivo de obtenção de recursos. Por isso decidiu realizar sua política do pleno emprego. E desse modo não somente atenuou os efeitos sociais da crise como seus eventuais efeitos políticos de fascistização com base no medo massivo. O sistema de pleno emprego não modificou a raiz da sociedade, mas funcionou durante décadas. Funcionou razoavelmente bem nos Estados Unidos, funcionou na França, produziu a inclusão social de muita gente, baseou-se no bem-estar combinado com uma economia mista que teve resultados muito razoáveis no mundo do pós-Segunda Guerra. Alguns estados foram mais sistemáticos, como a França, que implantou o capitalismo dirigido, mas em geral as economias eram mistas e o Estado estava presente de um modo ou de outro. Poderemos fazê-lo de novo? Não sei. O que sei é que a solução não estará só na tecnologia e no desenvolvimento econômico. Roosevelt levou em conta o custo humano da situação de crise.
- Quer dizer que para você as sociedades não se suicidam.(Pensa) – Não deliberadamente. Sim, podem ir cometendo erros que as levam a catástrofes terríveis. Ou ao desastre. Com que razoabilidade, durante esses anos, se podia acreditar que o crescimento com tamanho nível de uma bolha seria ilimitado? Cedo ou tarde isso terminaria e algo deveria ser feito.
- De maneira que não haverá catástrofe.- Não me interessam as previsões. Observe, se acontece, acontece. Mas se há algo que se possa fazer, façamos-no. Não se pode perdoar alguém por não ter feito nada. Pelo menos uma tentativa. O desastre sobrevirá se permanecermos quietos. A sociedade não pode basear-se numa concepção automática dos processos políticos. Minha geração não ficou quieta nos anos 30 nem nos 40. Na Inglaterra eu cresci, participei ativamente da política, fui acadêmico estudando em Cambridge. E todos éramos muito politizados. A Guerra Civil espanhola nos tocou muito. Por isso fomos firmemente antifascistas.
- Tocou a esquerda de todo o mundo. Também na América Latina- Claro, foi um tema muito forte para todos. E nós, em Cambridge, víamos que os governos não faziam nada para defender a República. Por isso reagimos contra as velhas gerações e os governos que as representavam. Anos depois entendi a lógica de por quê o governo do Reino Unido, onde nós estávamos, não fez nada contra Francisco Franco. Já tinha a lucidez de se saber um império em decadência e tinha consciência de sua debilidade. A Espanha funcionou como uma distração. E os governos não deviam tê-la tomado assim. Equivocaram-se. O levante contra a República foi um dos feitos mais importantes do século XX. Logo depois, na Segunda Guerra…
- Pouco depois, não? Porque o fim da Guerra Civil Espanhola e a invasão alemã da Tchecoslováquia ocorreu no mesmo ano.- É verdade. Dizia-lhe que logo depois o liberalismo e o comunismo tiveram uma causa comum. Se deram conta de que, assim não fosse, eram débeis frente ao nazismo. E no caso da América Latina o modelo de Franco influenciou mais que o de Benito Mussolini, com suas idéias conspiratórias da sinarquia, por exemplo. Não tome isso como uma desculpa para Mussolini, por favor. O fascismo europeu em geral é uma ideologia inaceitável, oposta a valores universais.
- Você fala da América Latina…- Mas não me pergunte da Argentina. Não sei o suficiente de seu país. Todos me perguntam do peronismo. Para mim está claro que não pode ser tomado como um movimento de extrema direita. Foi um movimento popular que organizou os trabalhadores e isso talvez explique sua permanência no tempo. Nem os socialistas nem os comunistas puderam estabelecer uma base forte no movimento sindical. Sei das crises que a Argentina sofreu e sei algo de sua história, do peso da classe média, de sua sociedade avançada culturalmente dentro da América Latina, fenômeno que creio ainda se mantém. Sei da idade de ouro dos anos 20 e sei dos exemplos obscenos de desigualdade comuns a toda a América Latina.
- Você sempre se definiu com um homem de esquerda. Também segue tendo confiança nela?- Sigo na esquerda, sem dúvida com mais interesse em Marx do que em Lênin. Porque sejamos sinceros, o socialismo soviético fracassou. Foi uma forma extrema de aplicar a lógica do socialismo, assimo como o fundamentalismo de mercado foi uma forma extrema de aplicação da lógica do liberalismo econômico. E também fracassou. A crise global que começou no ano passado é, para a economia de mercado, equivalente ao que foi a queda do Muro de Berlim em 1989. Por isso Marx segue me interessando. Como o capitalismo segue existindo, a análise marxista ainda é uma boa ferramenta para analisá-lo. Ao mesmo tempo, está claro que não só não é possível como não é desejável uma economia socialista sem mercado nem uma economia em geral sem Estado.
- Por que não?- Se se mira a história e o presente, não há dúvida alguma de que os problemas principais, sobretudo no meio de uma crise profunda, devem e podem ser solucionados pela ação política. O mercado não tem condições de fazê-lo.
(*) Martin Granovsky é analista internacional e presidente da agência de notícias Télam.
Publicado no jornal Página 12, em 29 de março de 2009
Tradução: Katarina Peixoto

Crise Econômica

Crise e regulamentação

A crise instalada não é apenas financeira, mas uma crise profunda do sistema capitalista influenciada pelas políticas neoliberais implantadas a partir do final de 1970, para reformular as demandas dos “estados de bem estar social” que foram implantados logo após a primeira grande crise do capitalismo em 1929.
As políticas neoliberais fortemente centradas da diminuição de capacidade de investimentos do Estado, na falta de regulamentação e transparência das privatizações como no caso brasileiro, permitiram o enfraquecimento do Estado Nação em relação aos grandes conglomerados econômicos que através da cobiça descabida, dos lucros imediatos e da profunda negação do Estado permitiram que a economia pudesse sobrepor a política. O resultado disso foi à crise gerada pelo sistema financeiro americano que atingiu as nações capitalistas mais desenvolvidas que sempre pregaram as políticas liberais na economia comandada pelo mercado através do jogo de oferta e procura.
Mas, apesar da amplitude e profundidade da crise ela pode gerar uma oportunidade única para repensarmos o papel da economia e do próprio sistema capitalista neoliberal que mostrou mais uma vez que é preciso uma regulamentação do Estado sobre a ação do mercado.
O crescimento urbano descontrolado gerou nos grandes centros processos de favelamento que junto com o aumento das desigualdades e das injustiças sociais, associadas à falta de políticas ambientais que permitiram ações predatórias em razão do mercado, jamais poderia ser pautas ignoradas por sociedade que se diz moderna.
A saída seria atender todas estas emergências através de investimentos em recursos públicos em defesa do trabalho, produção e não na especulação financeira descabida, na diminuição das desigualdades sociais, no compromisso dos conglomerados econômicos em investir cada vez mais em projetos ambientais e de sustentabilidade social, em credito bancário com juros baixos para o consumidor final, teto para os altos salários, transparência e controle acionário social, seriam condições, para as instituições financeiras receberem recursos públicos.O Estado e a sociedade teriam a obrigatoriedade de rever os limites da ação do mercado, propondo uma nova gestão, coerente com os interesses públicos e socialmente monitorados sem perder é claro sua criatividade

quarta-feira, 22 de outubro de 2008

A idéia de Revolução

Adeus ao Marxismo

Quando deixei à Universidade, repleto de esperança eu não queria me distanciar dos teóricos que sempre marcaram minha história e principalmente o modo como eu enxergava a sociedade. Assim, relíamos a dialética de Marx, Gramsci e Lênin não apenas para entender melhor o que eles diziam, mas para entender melhor nossa realidade, para poder transformá-la: partir do particular, do concreto, para ganhar depois a universalidade e generalidade e retornar ao particular, ao singular. Gramsci, quando falava da pequena burguesia, não queria fazer uma teoria da pequena burguesia. Ele falava que a pequena burguesia agira diferentemente na França e na Itália. Diga-se o mesmo de Marx: quando falava da ideologia, falava da ideologia em particular alemã. Falando da dialética, Lênin diz a mesma coisa: quando falava da “formação social” da classe trabalhadora, falava da classe trabalhadora soviética. São teóricos da singularidade porque falam do concreto e por isso, tornaram-se universais.
Assim, não se trata de partir da idéia universal de uma mudança estrutural da sociedade, de um mundo mentalmente diferente e acabado. Trata-se de resgatar a utopia, sim, mas aquela que está no cotidiano das pessoas que gostam de viver, que desejam construir um mundo melhor do que encontraram, mas este mundo que está aí, próximo de nós, não outro mundo. E não se trata de mudar o mundo para as pessoas que virão no futuro, mudar para beneficiar “os meus filhos que nem sei se virão”. Nós precisamos transformar o mundo agora, mesmo que a transformação não seja a sonhada por todos nós. “Ninguém caminha sem aprender a caminhar, sem aprender a fazer o caminho caminhando, refazendo e retocando o sonho pelo qual se pôs a caminhar” repetia Paulo Freire.
Não quero a “revolução pela revolução” que pregava atingir a totalidade das estruturas, as molas de toda a sociedade econômica, política e cultural etc. Quero sim atuar na micropolítica, fazendo a revolução do cotidiano, a revolução de cada dia após o outro, o “socialismo possível” de hoje, agora, para ir, desde já, construindo, no micro, o macro. É uma micropolítica que prepara uma revolução “maior”, uma revolução global que não será a revolução da repetição, mas a revolução criadora do novo que não é possível antever nem planejar.
Vivemos um tempo em que os homens se descobrem vivendo numa aldeia global e, ao mesmo tempo, descobrem que a sua existência faz parte de pequenos grupos. O nosso tempo é também o tempo da descoberta do “micropoder” (Foucault) da singularidade, da necessidade de viver plenamente, da descoberta do valor progressista da alegria, do prazer, da beleza, do corpo.
Che Guevara já nos havia ensinado que precisávamos sentir profundamente para ser revolucionários, que precisamos “ser duros sem jamais perder a ternura”. O revolucionário comandante angolano Agostinho Neto, já nos havia advertido de que “não basta a nossa causa ser justa e pura; é preciso que a pureza e a justiça estejam dentro de nós”. Eles nos haviam ensinado o valor progressista da afetividade, da ética, do amor. Temos parâmetros para nos orientar. Mas teremos mesmo aprendido a lição?
Não basta pensar a “revolução pela revolução”. É preciso desejá-la para que ela aconteça em profundidade, não só na superfície das estruturas político-econômicas.

sexta-feira, 10 de outubro de 2008

América Latina

História da integração poderá ser obrigatória na educação básica

A história da integração da América Latina poderá tornar-se matéria obrigatória da educação básica nos países que integram o Mercosul: Argentina, Brasil, Paraguai e Uruguai, além da Venezuela, que está em processo de adesão.
Essa proposta reflete a preocupação com a necessidade de tornar mais conhecido de nossas populações o processo de integração regional.

América Latina

Guerra Fria gerou na América Latina golpes patrocinados pelos EUA

A América Latina sofreu os efeitos da chamada Guerra Fria, que envolveu os Estados Unidos e seus aliados, de um lado, e o bloco de países socialistas encabeçados pela extinta União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS), de outro, durante três décadas (50, 60 e 70) do século passado. Empenhados em uma disputa ideológica em escala planetária, os blocos passaram a agregar aliados à força. Na Europa Oriental, os soviéticos espalharam seu poder com o uso dos tanques. Os americanos, em nosso continente, incentivaram, patrocinaram e até mesmo protagonizaram golpes militares para colocar, no poder, militares favoráveis à sua linha política.
A ascensão de Fidel Castro ao poder em Cuba em 1959, produziu a justificativa cabal e final para reforçar o discurso oficial de combate ao comunismo. Virtualmente todos os principais países do continente viveram golpes militares nos anos de 1960 e 1970, entre os quais, naturalmente o próprio Brasil.
E no caso do Chile, o governo reformista e declaradamente socialista de Salvador Allende foi apeado do poder pelas forças armadas em 11 de setembro de 1973, quando boa parte dos vizinhos já eram ditaduras militares de direita.
A crise econômica mundial da década de 1980, alimentada pela primeira grande alta do petróleo, produziu não apenas recessão e desemprego, mas abalos nos dois lados. Deu-se início a uma radical modificação no mapa da Europa, que ainda hoje não está encerrada, e abriu-se o caminho, na América, para a redemocratização de vários países.
Na América Latina, a política imperialista e agressiva dos EUA se expressa através de uma longa trajetória de anexações, intervenções e golpes militares e ingerências de todo tipo (políticas, econômicas, diplomáticas)

terça-feira, 7 de outubro de 2008

Redação para obtenção de emprego/ Fale sobre sua....

Experiência?

Já fiz cosquinha na minha irmã só pra ela parar de chorar, já me queimei

brincando com vela. Eu já fiz bola de chiclete e melequei todo o rosto,

já conversei com o espelho, e até já brinquei de ser bruxo. Já quis ser

astronauta, violonista, mágico, caçador e trapezista. Já me escondi atrás da
cortina e esqueci os pés pra fora. Já passei trote por telefone. Já tomei
banho de chuva e acabei me viciando. Já roubei beijo. Já confundi
sentimentos.

Peguei atalho errado e continuo andando pelo desconhecido. Já raspei o fundo
da panela de arroz carreteiro, já me cortei fazendo a barba apressado, já
chorei ouvindo música no ônibus. Já tentei esquecer algumas pessoas, mas
descobri que essas são as mais difíceis de esquecer.

Já subi escondido no telhado pra tentar pegar estrelas, já subi em árvore

pra roubar fruta, já caí da escada de bunda. Já fiz juras eternas, já escrevi

no muro da escola, já chorei sentado no chão do banheiro, já fugi de

casa pra sempre, e voltei no outro instante. Já corri pra não deixar alguém

chorando, já fiquei sozinho no meio de mil pessoas sentindo falta de uma só.

Já vi pôr-do-sol cor-de-rosa e alaranjado, já me joguei na piscina sem

vontade de voltar, já bebi uísque até sentir dormentes os meus lábios, já
olhei

a cidade de cima e mesmo assim não encontrei meu lugar. Já senti medo do

escuro, já tremi de nervoso, já quase morri de amor, mas renasci novamente
pra ver o sorriso de alguém especial. Já acordei no meio da noite e fiquei
com medo de levantar. Já apostei em correr descalço na rua, já gritei de
felicidade, já roubei rosas num enorme jardim.

Já me apaixonei e achei que era para sempre, mas sempre era um "para

sempre" pela metade. Já deitei na grama de madrugada e vi a Lua virar Sol,
já chorei por ver amigos partindo, mas descobri que logo chegam novos, e a
vida é mesmo um ir e vir sem razão. Foram tantas coisas feitas, momentos
fotografados pelas lentes da emoção, guardados num baú, chamado coração. E
agora um formulário me interroga, me encosta na parede e grita: "Qual sua
experiência?".

Essa pergunta ecoa no meu cérebro: experiência... experiência. Será que

ser "plantador de sorrisos" é uma boa experiência? Não! Talvez eles não
saibam ainda colher sonhos!

Agora gostaria de indagar uma pequena coisa para quem formulou esta
pergunta: "Experiência? Quem a tem, se a todo momento tudo se renova?"

A Nova Geopolítica Mundial

O Mundo (Re) Pensado


O final do século XX e o começo do século XXI marcam um grande processo de transformação em esfera global nos aspectos econômicos, políticos, sociais, ambientais e culturais. Para alguns, um sinal das conseqüências da própria modernidade empreendida durante o século XX, para outros, indícios e evidências de transformações de um Mundo Pós-Moderno, o qual teria superado o tipo de relações existentes e centrais na modernidade.
Porém, as mudanças não são apenas conceituais, não se trata de denominar o entendimento do mundo por modernidade ou por pós-modernidade, não que esta discussão não seja interessante, mas sim, reverberar sobre alguns aspectos em transformação que tem nos apontado esta nova configuração geopolítica tanto veiculada pela mídia e que tanto tem motivado a reflexão e o pensar de muitos intelectuais, filósofos e sociólogos para me ater em apenas alguns dos atores que tem pensado sobre essas transformações em curso.
A interpretação e busca de entendimento desses novos arranjos geopolítico global nos traz necessariamente uma nova concepção de mundo, de homem e de sociedade, uma nova relação do homem com a natureza e necessariamente do homem com o mundo e consigo mesmo. O mundo tem passado por um reordenamento global que tem tido predominância e valorização dos espetáculos sociais como também pelo encurtamento dos espaços propiciados pelo avanço tecnológico da informática e das telecomunicações, principalmente pela internet e pela nova configuração global em rede. A mundo industrial tem cedido gradativamente espaço para o mundo da informação e da comunicação.
O homem por sua vez também tem passado por muitas mudanças e tentativas de adequação a esses novos arranjos postos pelo mundo que por sua vez também influem diretamente na sociedade impondo um novo conjunto de relações sociais, seja no mundo do trabalho, na economia, na cultura, na forma de pesar e de lidar com o meio ambiente (a tida sustentabilidade ambiental com equidade social para o presente e para as gerações futuras) ou no padrão estético. Sendo que a cultura e a estética têm apresentado uma faceta bastante interessante no globalizar, qual seja: o mundo se globaliza (por mais que ainda em desigualdade) e ao mesmo tempo as diferenças aparecem e são postos frente a frente, ou seja, globaliza-se o mundo por um lado e por outro, as especificidades culturais e estéticas ainda permanecem, por mais que umas adquirem maior visibilidade que outras. Por outro lado às questões ambientais imputa uma nova forma de pensar a relação homem/natureza a adquire uma certa centralidade nas pautas governamentais em esfera global.
Como podemos perceber, a nova Geopolítica Mundial tem nos apresentado um conjunto de alterações na economia, nas comunicações, na política, na forma de “ver” e lidar com o meio ambiente, na cultura e na estética que inferem diretamente em um novo conjunto de relações sociais marcados por novos símbolos e novos rituais. A busca de entendimento desses novos arranjos postos a nossa frente dia-a-dia pelos jornais, pela televisão e pelo nosso próprio cotidiano em si vai para além da compreensão das mudanças que o mundo tem passado, ou seja, também infere sobre o tipo e estilo de vida que o homem tende a ter no século que se inicia.